Galeria da Exposição Inventário

Um inventário, muito mais que um arquivo que enumera itens e bens, trata-se de uma invenção. Com a capacidade de resgatar fragmentos antropológicos, coletando imagens e informações. Beatriz Rodrigues, como artista, historiadora e filósofa, apropria-se dos suportes das artes visuais para recriar suas reflexões sobre a ocupação das cidades, o mercado imobiliário, a história da arquitetura e seus processos de demolição e reconstrução, mas acima de tudo, resgatar as memórias que se fazem presentes em suas obras.

 

Beatriz inventa, portanto, novas dimensões a serem habitadas em espaços permeados pelo abandono e pela degradação.  Seus processos de coleta de imagens e fragmentos de ruínas se iniciaram há mais de dez anos, gerados por inquietações e angústias, pela incompreensão da falta de cuidado com o patrimônio histórico e cultural. Seus processos de coleta são uma tentativa de fazer durar aquilo que tende a ruir e escapar por entre os dedos. Assim como o artista Nuno Ramos, Beatriz começou a arrancar a pele das coisas para ver o que havia debaixo, percebeu que a pele dos tijolos ía virando pó. Como se tentasse capturar o pó com uma peneira, seus trabalhos de Inventário são uma pequena fração de moléculas capturadas de uma matéria que se esvai com o passar do tempo. O que permanece é uma invenção, ficção de uma possível realidade inventariada, que já não habita mais as paisagens de onde foram coletadas, mas sim espaços expositivos de arte e reflexões geradas pelo seu contato com o público.

 

O que antes era um processo de indignação pelo abandono, hoje se torna um processo de observar a natureza das coisas. Se humanos ali já não habitam mais, se ali não há mais mãos que zelam com cuidado, outras formas de vida começam a brotar. Os vegetais começam a reinar, as memórias a sedimentar. A matéria se transmuta, o desapego é inevitável. Se tivéssemos uma melhor compreensão da temporalidade entrópica, talvez não nos debateríamos contra os processos de transformação da matéria, que inegavelmente, tende a decair.   

 

A sensibilidade de Beatriz aflora nas soluções que encontra para exibir ao público sua pesquisa de imagens, que começa na fotografia, transborda para o campo escultórico imersivo de instalações e peças fotográficas. Os indícios aqui presentes permitem que você, visitante, possa recriar este inventário, muito além de tentar descobrir a história destas ruínas, tente vasculhar como estas imagens habitam em você.

 

Gustavo Reginato – Curador

Inventário - Catálogo de Exposição

Conheça mais sobre as obras da exposição Inventário!

Neste catálogo de exposição, você conhecerá os trabalhos da artista Beatriz Rodrigues, nas montagens da exposição realizadas em SC, em 2019. Além das fotografias das obras nos espaços expositivos, a publicação apresenta o texto curatorial da exposição, escrito pelo curador Gustavo Reginato, e também os escritos "Se esta carta chegar" e "Ruínas: modos de habitar", da artista Beatriz Rodrigues, que apresentam reflexões sobre as ruínas em relação a seu processo poético no campo das artes visuais. Esta publicação é uma parceria entre o Projeto Inventário e a Editora Caseira (Florianópolis/SC).